Atuais

  • Rodrigo Torres / VíVERES, 22/07 – 26/08/2017

    Víveres

    “Todos os integrantes da armada ainda teriam direito aos bens saqueados aos povos…”
    (A Viagem do descobrimento. Eduardo Bueno)

    Era comum na armada de Cabral a divisão de bens saqueados aos povos, aos quais denominavam butim. E tudo interessaria aos que vinham do mar, armas, mantimentos, especiarias, prisioneiros, homens escravizados. Os víveres eram mais do que controlados, cabendo sua guarda a um cargo específico na cidade-caravela. Mas, a natureza sempre foi insurgente e ninguém conseguiu conter o fétido dos toneis de água e o avinagrar dos mais apreciados vinhos. Essa busca por butins continuara no Novo Mundo, ganhando, a cada momento, configurações específicas. O ouro, o minério, a cana-de-açúcar, por exemplo, fizeram da escravidão no Brasil algo inédito, já que destinada às lavouras constituídas por milhares de degradados. E o fausto, a opulência das mesas coloniais se mantinham a essas custas, enquanto o gentio acostumara-se a catar os restos na sarjeta, a experimentar o apodrecido dos víveres nas xepas, a carregar o esgoto das cidades na cabeça. Mas, não à toa, essa história foi acompanhada por insurgências, revoltas, motins capitaneados por tupinambás, caboclos, malês. Subvertia-se a ordem pública. As ruas ganhavam a astúcia de poderosas armas, como zarabatanas, tacapes, ofás, feitos em madeiras, metais, pedras, garrafas, escondidas em panos-da-costa, mochilas e sacos de pão, ameaçando os mármores reluzentes dos palácios falsamente greco-romanos.
    Ainda assim, nada continha a ganância da capital federal. Se o paraíso tropical não desse lucro, conjecturava-se o abuso na “política fiscal praticada pelo governador”. E o controle se mantinha atento ao que poderia parecer subversivo, como o canto, a dança, os modos de celebração de uma população nascida de distintas diásporas, nos terreiros, quintais, embaixo de viadutos, onde misturam-se continentes em riquezas culturais imateriais, no âmago da fé, no torpor de afetos e trocas que jamais se conformaram aos sentidos disciplinadores e totalizantes dos que, momentaneamente, se apoiam na ilegitimidade de um poder sem representatividade.
    Em Víveres, Rodrigo Torres se utiliza do virtuosismo técnico para nos aproximar dessas polaridades, do brilho de superfícies marmorizadas, em técnicas de Corte, em trompe l’oeil, ou do corrugado ameaçador das embalagens de papel, coquetéis molotovs, abandonadas ao pânico dos aeroportos. Torres se afirma com profunda determinação ao observar os gestos de uma produção artística que precisa coadunar-se aos conceitos da arte, da sociedade e da política. Víveres, com isso, nos confronta à maturidade do artista, experimentando efeitos de superfícies materiais, ao mesmo tempo que reflete sobre as mazelas da colonização e do capitalismo. Rodrigo tangencia e atravessa os fatos do agora, observando, justamente, os modos como a natureza e a civilização foram constituindo um Brasil a ser explorado, espoliado em suas riquezas naturais “tipo exportação”, em prol do fastio da mesa, das carnes nobres, dos elementos de distinção e dispêndio das louças coloniais que, hoje, permanecem em trânsito nos contrabandos que circulam livremente. Curiosamente, como nos informa Lilia Schwarcz, “os colonos cariocas tornaram-se peritos na atividade do contrabando: furavam bloqueios, driblavam o fiscalismo”. E o que nos espanta é perceber que esta informação se refere aos idos de 1600.
    O que nos restará, então, como sociedade? A lógica de exploração da produção agrária a qualquer custo? O fato é que a circulação da natureza e das relíquias coloniais, nas casas ou nas ruas, geraram uma parcela de complexidade a qual não conseguimos cindir, separar em modos identitários ou modas passageiras, como já previra Gilberto Freyre. Quem somos nós? Por um lado, filhos do desejo desenfreado do consumo, por outro, sobreviventes da violência, os que não têm lugar na anomia da mestiçagem. Mas, o corpo insurge-se frente ao desmantelamento das conquistas humanitárias. A tropicalidade vilipendiada é nossa ascensão e nosso ocaso, por ora empobrecida pelo turismo ou pela vontade de se tornar símbolo pátrio. República de bananas? Vemos a riqueza se esvair de tanta apropriação.
    O que nos resta é rever os gestos das rebeliões, dos motins, das sedições, das revoltas, resistindo ao que nos torna reféns.

    Marcelo Campos, Julho 2017